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set
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Ser Humano: Amor de Si

Rousseau não atribuiu ao homem apenas as faculdades inatas da liberdade e da perfectibilidade. Ao considerar as operações primitivas da alma humana, ele encontrou dois princípios naturais anteriores à razão: o instinto de conservação que prende o homem a si mesmo e a piedade que prende o homem ao outro. O instinto de conservação é pautado pelo amor de si. Trata-se de um sentimento natural que impele o homem a preservar a sua própria vida e a assegurar o seu próprio bem-estar. Ou seja, o amor de si é uma paixão primitiva que tem por função o zelo pela própria existência através da busca de condições de subsistência.

Segundo Rousseau, não existe perversidade original no coração humano. No estado de natureza, o homem é isento de vícios – as depravações decorrem dos conflitos de interesse do contexto social. A única paixão natural ao homem é o amor de si que garante a manutenção da vida. Este impulso inato responsável pelos cuidados relativos à sobrevivência fica saciado quando as necessidades básicas são satisfeitas. Ademais, ao contrário de Hobbes que acentua que o instinto de conservação implica na guerra de todos contra todos, Rousseau alega que o homem natural não precisa lutar com os seus semelhantes para defender a sua vida. Ao invés da ferocidade natural, ele preserva a sua vida sem prejudicar os outros.

Uma vez que o amor de si é intrinsecamente bom, Rousseau afirma que ele é a fonte natural de todas as virtudes. As paixões primitivas que são amáveis e doces por essência derivam do amor de si. Não obstante, a convivência social acaba deturpando o amor de si. Com o surgimento da sociedade, o homem passa a centralizar o seu eu individual nas relações sociais. Motivado pelo desejo doentio de honra e distinção, ele acolhe como uma ofensa todo ato que não prefere ou privilegia a sua pessoa. 

Assim, o ingresso do homem na vida civil perverte o amor de si em amor-próprio que consiste no desejo agressivo de controlar os outros. Por causa do amor-próprio, o homem tomado pela vaidade passa a reivindicar superioridade sobre o outro, a exercer um poder arbitrário sobre o outro, a impor submissão ao outro e a desejar a ignomínia do outro. Ao atribuir extrema importância ao seu ego, o homem da sociedade acaba subestimando e depreciando os outros em comparação à sua própria pessoa. Movido pelo orgulho do amor-próprio cuja fruição é puramente negativa, ele não procura a sua satisfação para o seu próprio bem, mas para o mal dos outros.

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