Archive for the 'filosofia' Category

15
fev
11

Tempo em Marcha Para Zenturo

Fruto da união criativa de dois coletivos cênicos que valorizam o discurso autoral, Marcha Para Zenturo apresenta o tempo como um movimento contínuo de diluição. A peça – produzida pelos paulistas do Grupo XIX e pelos mineiros da Companhia Espanca! – expõe o processo de liquefação causado pelo tempo. A ação implacável do tempo é mostrada como um fluxo permanente de dissolução.

Ambientada em uma sociedade futurista (2441), Marcha Para Zenturo retrata um mundo marchando ininterruptamente para o degelo. O cenário carregado de gelo é uma metáfora do derretimento das bases sólidas que edificam o mundo. Assim como o gelo do palco é lentamente diluído, assim também os pilares concretos do nosso mundo foram vagarosamente dissolvidos. Um exemplo é a liquefação do peso da religião cristã sobre a cultura ocidental. Agora o crucifixo não passa de um objeto decorativo encontrado em antiquários.

A temática do tempo também aparece nos diálogos desencontrados. A sociedade de Marcha Para Zenturo é caracterizada pela desordem lingüística. Em vez de falas alinhadas, a comunicação entre as pessoas é totalmente dessincronizada. Por causa do caos verbal, o tempo não representa mais a soma de passado, presente e futuro. O tempo é concebido como uma dimensão da consciência: um modo pessoal e subjetivo de habitar o presente retendo o passado e antecipando o futuro. Ao invés de um instante entre o antes e o depois, o tempo é um movimento do espírito que unifica passado, presente e futuro.

Marcha Para Zenturo
Direção: Luiz Fernando Marques
Texto: Grace Passô
Classificação etária: 14 anos
Duração: 90 minutos

25
dez
10

feliz natal ou natal feliz?

Será que existe diferença entre feliz natal e natal feliz? Acredito que sim. Embora as duas expressões pareçam sinônimas, elas são antagônicas. Feliz natal é saudação; natal feliz é doação. Feliz natal é formalidade; natal feliz é generosidade. Feliz natal é cumprimentar; natal feliz é compartilhar. Feliz natal revela comodismo de palavras; natal feliz revela altruísmo de ações. Em contraposição ao feliz natal que é desejado, o natal feliz é materializado. Ou seja, enquanto o feliz natal implica em esperar, o natal feliz implica em repartir. Isso significa que não existe feliz natal (dizer) sem natal feliz (fazer).

A passagem do feliz natal para o natal feliz depende da diaconia. Transformo o feliz natal em natal feliz quando me entrego ao serviço. Assim como o Deus menino que veio para servir e não para ser servido, eu devo me comprometer com o serviço solidário. Sem assumir a postura humilde de servo como Jesus, não posso promover um natal feliz porque permaneço escravo da minha indiferença. Não posso dar ao outro um natal feliz sem me libertar da tirania do meu pequeno eu. Assim, para entrar na ciranda da fraternidade e da solidariedade, eu preciso aprender que maior é aquele que serve. Para tremular a bandeira da comunhão e da compaixão, eu preciso entender que eu sirvo a Cristo na medida em que sirvo ao outro.

Em suma, ao contrário do feliz natal que me encarcera ao interior, o natal feliz me lança ao exterior. Destrói as grades da minha cela interna para me arremessar ao mundo externo. Em outras palavras, enquanto o feliz natal condiciona a minha visão para o meu ego, o natal feliz transporta o meu olhar na direção dos outros. Eu passo a sacrificar os meus interesses em prol do natal dos outros. Eu passo a renunciar os meus privilégios para melhorar a ceia de natal dos outros. Por isso, para viver um feliz natal é necessário dar ao outro um natal feliz.

Por Rafael Divino

02
dez
10

tudo que é sólido desmancha no ar

O que é a modernidade? Um programa racionalista? Um projeto iluminista? Um período otimista? Uma era cientificista? Uma visão progressista? Um ideário desenvolvimentista? Ou uma utopia positivista? Marshall Berman defende a modernidade como um conjunto de experiências paradoxais compartilhadas universalmente por homens e mulheres. Para Berman, as experiências constitutivas da modernidade são caracterizadas pela perpétua contradição. Aparecem como um fluxo ininterrupto de construção e destruição, um movimento incessante de surgimento e desaparecimento ou um turbilhão permanente de integração e desintegração.

Segundo Berman, ser moderno é viver sob o signo do paradoxo perene. O homem moderno vivencia a ambigüidade do redemoinho de constantes transições e freqüentes sucessões. O seu coração carrega a esperança de transformação e o terror da aniquilação. Ele é movido ao mesmo tempo por um espirito revolucionário e por um ímpeto conservador. Apesar de buscar a imprevisibilidade do novo, ele valoriza a estabilidade do antigo. Embora almeje o caos da vanguarda, ele prefere a ordem da tradição.

Na concepção de Berman, a contradição do homem moderno decorre do cenário antagônico. Ele vive em um ambiente polarizado onde tudo parece impregnado do seu contrário. As inovações científicas geraram devastações ecológicas, os avanços tecnológicos geraram extermínios covardes, a explosão demográfica gerou catástrofes urbanas, a prosperidade econômica gerou desigualdades sociais e as descobertas médicas geraram rincões de miséria.

Por isso, Berman afirma que viver a modernidade é enfrentar o perigo do desconhecido. Uma vez que o território da modernidade é instável, incerto e inseguro, ninguém escapa do risco da novidade. Sem bases concretas para edificar a sua existência, o homem moderno encarna o desafio de viver em uma realidade onde tudo é transitório e fugidio. Aceita a aventura de existir em um mundo onde tudo que é sólido desmancha no ar.

veja mais em:

ser moderno é viver uma vida de paradoxo e contradição

ser moderno é autotransformação e autodestruição

18
nov
10

Ser Humano Ente Urbano: Labor, Trabalho e Ação

Em A Condição Humana, a pensadora Hannah Arendt propõe uma reflexão filosófica a respeito da vida activa – fazer humano. Ela analisa criticamente a vida activa constituída por três atividades centrais que correspondem às condições básicas da vida humana: o labor, o trabalho e a ação. O labor pressupõe necessidade, o trabalho pressupõe mundanidade e a ação pressupõe pluralidade. O homem interage com o natural no labor, com o artificial no trabalho e com os humanos na ação.

Para Arendt, o labor tem um estatuto natural. Concerne ao processo biológico da vida – ao ciclo vital da natureza. Uma vez que o labor corresponde ao movimento circular de nascimento, desenvolvimento e perecimento, ele é o espaço natural da manutenção da vida. Ele tem por meta garantir a conservação da espécie humana. Tendo em vista que o labor visa assegurar a preservação do gênero humano, a sua atividade consiste em satisfazer as necessidades fisiológicas da existência humana. Ora, partindo do pressuposto que tudo que é produzido pelo labor deve ser consumido, o seu exercício sempre será uma repetição interminável. Só poderá ser esgotado com a extinção da existência.

Ao contrário do labor cuja a essência é natural, o trabalho tem um caráter cultural. Corresponde ao processo artificial de produção de objetos úteis e duráveis. Em vez de produzir para consumir como o labor, o trabalho visa produzir para facilitar e estabilizar a vida humana. O seu objetivo é construir um mundo artificial que funcione como uma morada permanente para os homens. Com efeito, o trabalho é oposto o labor porque o seu processo artificial é acabado e fechado. Enquanto que o labor é um ciclo natural inesgotável, o trabalho é encerrado na finalização do objeto.

Por fim, o último elemento da vida activa abordado pela Hannah Arendt é a ação. A ação é o espaço da interpessoalidade e o ambiente da intersubjetividade  – ocorre entre sujeitos. Por pressupor uma rede de relações dialógicas entre os homens, a ação ocorre sem mediação de fenômenos naturais (labor) ou objetos artificiais (trabalho). Além disso, por causa da sua exigência de associações entre homens, a ação é uma atividade entre homens enquanto humanos e não enquanto entidades naturais (labor) ou indivíduos culturais (trabalho).

Conforme Arendt, considerando que a ação é uma atividade dos homens livres na esfera pública, ela é uma expressão da pluralidade humana. A sua concretização depende da convivência entre indivíduos diferentes. Todavia, visto que a ação exige uma diversidade interativa, ela particulariza os homens. Ela promove a aparição de individualidades e possibilita a construção de identidades. Ora, o homem jamais poderá manifestar a sua singularidade no isolamento. Ninguém mostra o que é na esfera pessoal da intimidade. Somente quando está com os outros o homem pode revelar o que é.

Segundo Arendt, a ação é caracterizada pela imprevisibilidade e pela irreversibilidade. Ela é imprevisível porque os seus efeitos são inesperados. Ninguém pode calcular os resultados de uma ação porque ela está no território da imprecisão. As suas consequências são indeterminadas posto que não respeitam probabilidades nem obedecem estatísticas. Ela é irreversível porque nenhuma ação pode ser desfeita. É impossível retornar ao passado para cancelar uma ação. Apesar dos resultados da ação poderem ser revogados, a ação jamais poderá ser anulada da história.

Por isso, Arendt concebe a ação como uma constante abertura para a novidade. Ela é um começar incessante de novos processos ou um iniciar permanente de novos ciclos. Por causa da sua capacidade de engendrar novas etapas, a ação é uma projeção indefinida rumo ao desconhecido ou um movimento indeterminado em direção ao ignorado. Ao instaurar o oculto no mundo, a ação inaugura histórias com desdobramentos infinitos.

Em cima da reconsideração da Hannah Arendt da vida activa, podemos teorizar a respeito do tema ser humano ente urbano. O labor seria uma atividade do ser humano, o trabalho seria uma atividade do ente urbano e a ação seria uma atividade da fusão ser humano e ente urbano. O homem enquanto ser humano seria um ente natural, enquanto ente urbano seria um ente cultural e enquanto combinação de ser humano e ente urbano seria um ente relacional. Como ser humano, o homem está inserido no domínio corporal. Como ente urbano, o homem está inserido no âmbito artificial. Como junção de ser humano e ente urbano, o homem está inserido na esfera social.