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nov
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Ser Humano Ente Urbano: Labor, Trabalho e Ação

Em A Condição Humana, a pensadora Hannah Arendt propõe uma reflexão filosófica a respeito da vida activa – fazer humano. Ela analisa criticamente a vida activa constituída por três atividades centrais que correspondem às condições básicas da vida humana: o labor, o trabalho e a ação. O labor pressupõe necessidade, o trabalho pressupõe mundanidade e a ação pressupõe pluralidade. O homem interage com o natural no labor, com o artificial no trabalho e com os humanos na ação.

Para Arendt, o labor tem um estatuto natural. Concerne ao processo biológico da vida – ao ciclo vital da natureza. Uma vez que o labor corresponde ao movimento circular de nascimento, desenvolvimento e perecimento, ele é o espaço natural da manutenção da vida. Ele tem por meta garantir a conservação da espécie humana. Tendo em vista que o labor visa assegurar a preservação do gênero humano, a sua atividade consiste em satisfazer as necessidades fisiológicas da existência humana. Ora, partindo do pressuposto que tudo que é produzido pelo labor deve ser consumido, o seu exercício sempre será uma repetição interminável. Só poderá ser esgotado com a extinção da existência.

Ao contrário do labor cuja a essência é natural, o trabalho tem um caráter cultural. Corresponde ao processo artificial de produção de objetos úteis e duráveis. Em vez de produzir para consumir como o labor, o trabalho visa produzir para facilitar e estabilizar a vida humana. O seu objetivo é construir um mundo artificial que funcione como uma morada permanente para os homens. Com efeito, o trabalho é oposto o labor porque o seu processo artificial é acabado e fechado. Enquanto que o labor é um ciclo natural inesgotável, o trabalho é encerrado na finalização do objeto.

Por fim, o último elemento da vida activa abordado pela Hannah Arendt é a ação. A ação é o espaço da interpessoalidade e o ambiente da intersubjetividade  – ocorre entre sujeitos. Por pressupor uma rede de relações dialógicas entre os homens, a ação ocorre sem mediação de fenômenos naturais (labor) ou objetos artificiais (trabalho). Além disso, por causa da sua exigência de associações entre homens, a ação é uma atividade entre homens enquanto humanos e não enquanto entidades naturais (labor) ou indivíduos culturais (trabalho).

Conforme Arendt, considerando que a ação é uma atividade dos homens livres na esfera pública, ela é uma expressão da pluralidade humana. A sua concretização depende da convivência entre indivíduos diferentes. Todavia, visto que a ação exige uma diversidade interativa, ela particulariza os homens. Ela promove a aparição de individualidades e possibilita a construção de identidades. Ora, o homem jamais poderá manifestar a sua singularidade no isolamento. Ninguém mostra o que é na esfera pessoal da intimidade. Somente quando está com os outros o homem pode revelar o que é.

Segundo Arendt, a ação é caracterizada pela imprevisibilidade e pela irreversibilidade. Ela é imprevisível porque os seus efeitos são inesperados. Ninguém pode calcular os resultados de uma ação porque ela está no território da imprecisão. As suas consequências são indeterminadas posto que não respeitam probabilidades nem obedecem estatísticas. Ela é irreversível porque nenhuma ação pode ser desfeita. É impossível retornar ao passado para cancelar uma ação. Apesar dos resultados da ação poderem ser revogados, a ação jamais poderá ser anulada da história.

Por isso, Arendt concebe a ação como uma constante abertura para a novidade. Ela é um começar incessante de novos processos ou um iniciar permanente de novos ciclos. Por causa da sua capacidade de engendrar novas etapas, a ação é uma projeção indefinida rumo ao desconhecido ou um movimento indeterminado em direção ao ignorado. Ao instaurar o oculto no mundo, a ação inaugura histórias com desdobramentos infinitos.

Em cima da reconsideração da Hannah Arendt da vida activa, podemos teorizar a respeito do tema ser humano ente urbano. O labor seria uma atividade do ser humano, o trabalho seria uma atividade do ente urbano e a ação seria uma atividade da fusão ser humano e ente urbano. O homem enquanto ser humano seria um ente natural, enquanto ente urbano seria um ente cultural e enquanto combinação de ser humano e ente urbano seria um ente relacional. Como ser humano, o homem está inserido no domínio corporal. Como ente urbano, o homem está inserido no âmbito artificial. Como junção de ser humano e ente urbano, o homem está inserido na esfera social.

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