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Ser Humano (Eu Fenomênico) Ente Urbano (Eu Numênico)

A filosofia kantiana concebe o homem como um ser bipartido. Ele pode ser entendido sob um duplo ponto de vista. Enquanto eu fenomênico, o homem é um ser sensível. Enquanto eu numênico, o homem é um ser inteligível. Enquanto eu fenomênico, o homem é um ente sensorial. Enquanto eu numênico, o homem é um ente racional. Enquanto eu fenomênico, o homem é objeto. Enquanto eu numênico, o homem é sujeito. Ora, a interrogação que fica é a seguinte: quais são as implicações do homem como fenômeno e como númeno?

Para Kant, o homem é fenômeno porque está radicado no domínio da experiência. Por causa da sua natureza empírica, as suas ações são condicionadas por leis biológicas. Isto é, ele é determinado pelo mecanicismo natural. Assim, uma vez que o homem enquanto fenômeno tem a sua vida regulada por uma legislação natural, ele não é livre. A sua vontade é afetada por impulsos físicos. As suas escolhas são impelidas por componentes orgânicos.

Contudo, Kant afirma que o homem está submetido aos ditames sensíveis somente como fenômeno. Considerando que o homem também é númeno, ele pode recusar as prescrições naturais através da razão. Isso significa que o homem como númeno é autônomo – livre das imposições da ordem natural. Dotado de intelecto, ele pode conformar a sua vontade com as leis práticas da razão pura. Ou seja, ele pode agir baseado nos conceitos universais e necessários da pura moralidade.

Como podemos aplicar a bifurcação kantiana ao binômio ser humano/ente urbano? Ora, como ser humano, o homem é fenômeno (objeto); como ente urbano, o homem é númeno (sujeito). Sendo ser humano, as suas ações ocorrem no plano da natureza. Sendo ente urbano, as suas ações ocorrem no campo da liberdade. Devido ao seu caráter empírico, o homem enquanto ser humano é coagido pela causalidade natural. Os seus atos obedecem o determinismo físico. Em vista da sua dimensão racional, o homem enquanto ente urbano tem uma vontade autônoma – independente de fatores externos. Ele é autodeterminado na medida em que os seus atos são livres e espontâneos.

Assim, é o estatuto racional que permite a passagem de ser humano (fenômeno) para ente urbano (númeno). Sem a condição de agente racional, o homem permaneceria escravo da tirania da natureza. Condicionado pela sensibilidade, ele não poderia agir moralmente – escolher partindo dos princípios puros e a priori da razão prática – posto que seria constrangido a acatar os decretos da natureza. Por isso, o caráter racional confere dignidade ao homem. Com uma vontade independente das normas empiricamente condicionadas, o homem adquire valor absoluto. Promove a harmonia urbana na medida em que trata as pessoas com fim em si mesmas e não como meios.

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1 Response to “Ser Humano (Eu Fenomênico) Ente Urbano (Eu Numênico)”


  1. dezembro 24, 2016 às 10:57 am

    Gostei demonstra a dicotomia que se constitui o homem: um ser dependente dos acontecimentos e um ser livre, posto que é livre intelectualmente para escolher e se realizar como projeto.


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