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set
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Ser Humano: Piedade

Além do desejo inato de conservação, Rousseau afirma que o homem carrega também uma virtude natural que o torna um ser compassivo e sensível. Trata-se da piedade que consiste na repugnância inata de ver sofrer ou perecer o seu semelhante. Este impulso interior de comiseração é fundamental no processo de socialização na medida em que produz um movimento natural de empatia com a dor do semelhante. Ou seja, a piedade gera sociabilidade porque exige que o homem considere a desgraça alheia.

Para Rousseau, a piedade é um sentimento natural que concorre para a preservação da humanidade na medida em que estabelece um limite ao amor de si. Ao moderar a disposição inata de conservação, a piedade garante que a espécie humana não seja formada unicamente para a destruição. Isto é, uma vez que o homem é originalmente indulgente, ele naturalmente prestará socorro quando presenciar um semelhante em perigo. Ora, para que haja comoção com o infortúnio do seu semelhante, é preciso que o homem esqueça o seu ser para assumir o ser do seu semelhante. E para que haja identificação com a desventura do seu semelhante, ele deve abandonar o amor de si. Sem deixar o amor de si, ele não pode colocar-se no lugar daquele que sofre.

Em cima disso, Rousseau afirma que a piedade é um princípio natural que precede a reflexão. Trata-se de uma paixão primitiva que é anterior ao pensamento. Ou seja, ela não depende da atividade racional para ser efetivada. Ora, o homem natural não precisa recorrer ao exercício intelectual para auxiliar um semelhante em aflição. A sua solidariedade com a dor do seu semelhante é fruto de um impulso natural e não de uma especulação abstrata. Isso significa que a piedade está inscrita na esfera biológica. Ela pertence aos homens enquanto seres dos sentidos e não como seres racionais.

Com isso, Rousseau demonstra que a indiferença provém do estado de raciocíno. Ela é produto da deliberação. Basta que o homem pondere sobre as alternativas possíveis para que a inclinação natural da comiseração ceda lugar ao descaso. Em vez de entregar-se ao impulso original da compaixão como o homem natural, o homem socializado prefere contemplar impavidamente a degola do seu semelhante sob a sua janela. Logo, podemos concluir que a indiferença nasce do esforço civilizatório cujo efeito é o apagamento da sensibilidade originária.

Por fim, Rousseau enaltece a piedade como a base constitutiva de todas as virtudes sociais. Ora, o que é a generosidade senão a piedade aplicada aos oprimidos, a clemência senão a piedade aplicada aos culpados e a humanidade senão a piedade aplicada à espécie humana? Por suavizar a ação do amor de si, a piedade ocupa o lugar das leis, dos costumes e da virtude no estado de natureza. Além disso, ao promover a noção de semelhança em relação aos demais seres humanos, a piedade permite que o homem saia de si mesmo para atender as necessidades daquele que padece.

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