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Tempo em Heráclito: Brincadeira de Criança

“Tempo é criança jogando e brincando. Reinado de criança (Fragmento 52 DK).”

A compreensão de Heráclito acerca da natureza do tempo rompe com a idéia de Anaximandro que concebia o processo transfigurador do tempo como um instrumento de punição à vida singularizada. Ao contrário de Anaximandro que acreditava que a alteridade constante das existências individualizadas servia para corrigir a culpa cósmica, Heráclito propõe a mobilidade do devir como fonte de renovação da vida. Ou seja, o fluxo contínuo de seres em ininterrupta mudança possibilita a renovação das forças vitais no seio da natureza. Se não houvesse o movimento perene do devir, a vida seria extinta.

Conforme Heráclito, o tempo (aión) é caracterizado pelo movimento lúdico. Ao infantilizar a mobilidade temporal, Heráclito isenta o tempo da responsabilidade moral pelas incessantes mutações das formas particulares da natureza. Isso significa que as transformações contínuas impostas pelo tempo aos seres individualizados não passa de uma atividade pueril destituída de qualquer conotação moral. Assim como uma criança é inocente pelos seus atos, as perenes modificações exercidas pelo tempo são livres de qualquer imputação moral.

Considerando que o tempo atua inocentemente como uma criança brincando, Heráclito defende a amoralidade do tempo. Ao brincar como uma criança, o tempo não pode ser penalizado pela alteridade permanente da vida. A meninice do tempo expressa um valor amoral – acima do certo ou errado. A sua ação transformadora está para além do bem e do mal. Isso implica na rejeição da idéia de um mal metafísico existente na realidade que contaminaria todas as formas de vida.

Tendo em vista que a mutabilidade duradoura do tempo é desprovida de qualquer culpabilidade moral, Heráclito concebe a perene transformação da realidade como um processo imprescindível da vida. A continuidade da vida é garantida pelo processo infindável de reconstituição dos caracteres do mundo. Através do fluxo perpétuo onde tudo é convertido em seu contrário, o tempo atua como um poder renovador da existência. Sem a sequência interminável de nascimento e perecimento promovida pelo tempo, não haveria equilíbrio no mundo natural. Isso significa que a estabilidade da ordem universal depende da conjunção das tensões opostas realizada pelo jogo divertido do tempo.

Para encerrar, Nietzsche interpreta o movimento lúdico do tempo como um jogo inocente de fazer e desfazer. Ele compara o tempo com a brincadeira de construir e destruir um castelo de areia. Assim como uma criança monta e desmonta um castelo de areia, assim também o universo é composto e decomposto pela força implacável do devir. O aparecimento-desaparecimento dos fenômenos naturais é um mero entretenimento lúdico do tempo. Em vez de ser uma punição pela individuação dos entes, o eterno vir-a-ser da realidade é fruto do espírito irresponsável do tempo.

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2 Responses to “Tempo em Heráclito: Brincadeira de Criança”


  1. 1 Marcos
    dezembro 22, 2011 às 7:37 am

    muito bom gostei…

  2. 2 Monica
    outubro 16, 2012 às 10:57 am

    Muito bom!!
    Acho essencial o brincar para as crianças! Por isso sempre incentivo meus filhos a brincarem com jogos educativos! Compro sempre online e chega rapidinho em casa, vale a pena! Vc consegue ver que os pequenos crescem intelectualmente e como seres humanos.
    Fica a dica para quem quiser: http://www.tricae.com.br/brinquedos/jogos-educativos/
    Bjos


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