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Tempo em Anaximandro

“De onde as coisas tiram a sua origem, daí devem também perecer segundo as suas necessidades; pois elas tem de expiar e ser julgadas pelas suas injustiças de acordo com a ordem do tempo (Fragmento 1 DK).”

Filósofo da escola jônica, Anaximandro acredita que o elemento primordial da existência (arkhé) é o apeiron – indeterminado ou indiferenciado. Trata-se de um princípio originário infinito e ilimitado. Sendo uma realidade primeira, o apeiron é o fundamento imaterial incriado ou inengendrado (agéneton) que gerou todos os seres cósmicos. Ou seja, Anaximandro defende que a  origem de todos os entes naturais provém de uma substância primitiva invisível e indestrutível.

Pressupondo que a ordem do mundo decorre do caos de um ser metafísico informe e incacabado, a individuação dos seres físicos produziu a mobilidade do devir. Ora, tendo em vista que o elemento primeiro é desprovido de qualidades definidas, o processo de particularização dos entes naturais por meio de predicados específicos culmina nas transformações contínuas do unverso. Ou seja, uma vez que a essência última de todos os seres físicos é uma substância indefinida, Anaximandro acredita que a alteridade permanente do mundo é provocada pelos atributos determinados dos seres manifestados em formas individuais na natureza. 

 Para Anaximandro, a existência singularizada por propriedades específicas deflagra uma injustiça cósmica. Esta injustiça cósmica surge no ato da individuação da existência onde o ente adquire as suas características singulares. Ora, a particularização dos seres vivos implica em uma injustiça cósmica na medida em que provoca um embate de opostos. Este confronto de contrários resulta na injustiça cósmica porque pressupõe a predominância de uma dada característica sobre uma outra, isto é, o prevalecimento de um elemento definido sobre o outro.

Com efeito, Anaximandro assevera que somos culpados pela existência. A nossa culpabilidade moral decorre da nossa falta primordial em relação ao uno originário (apeiron) que é destituído de atributos específicos. Isso significa que o nosso nascimento é um evento culpável porque afronta o apeiron que é o elemento primeiro indistinto. Ou seja, a nossa individualização por meio de predicados específicos é uma ofensa ao apeiron – indeterminado – que é a fonte subjacente de todos os seres vivos.

Em cima disso, Anaximandro propõe uma correção da injustiça cósmica através da ação expiatória do tempo. Na sua perspectiva, o tempo exerce o seu poder reparador através da mobilidade do devir. Esta alteridade permanente corrige a imperfeição dos seres individualizados que desgarraram-se do apeiron – ser primordial impessoal. Assim, o papel do tempo é redimir as existências singulares através do processo de transformação contínua. Ele funciona como um instrumento corretivo na medida em que repara os entes particularizados por meio da mutabilidade perene.

A interrogação que fica é a seguinte: como podemos ser redimidos do nosso erro original através do mecanismo temporal do vir-a-ser? Anaximandro acredita que a nossa única possibilidade de remissão consiste no aniquilamento da existência através da atuação corretiva do tempo. A nossa situação de culpabilidade só pode ser redimida pelo perecimento. Ou seja, a nossa reparação exige a supressão da nossa vida enquanto individualidade pelo efeito assimilador do tempo. Assim, Anaximandro defende que a nossa culpa só pode ser eliminada quando sucumbimos diante da força expiatória do tempo. 

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1 Response to “Tempo em Anaximandro”


  1. abril 20, 2010 às 3:23 pm

    Anaximandro eh um filosofo muito bom
    eu gosto da historia sobre a vida dele
    ele foi hum sientista muito bom
    Anaximandro ele morou e morreu da cidade de Mileto


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