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A Circularidade Temporal em Cem Anos de Solidão

Clássico da literatura internacional, Cem Anos de Solidão escrito pelo premiado Gabriel García Márquez não é uma crônica de um período determinado. Em vez da obra apresentar uma época histórica precisa, a narrativa possui uma estrutura temporal cíclica. A sua trama é marcada pela temporalidade circular – sem momento inicial e sem momento final. A saga da famíla Buendía é uma roda que gira eternamente ao redor de acontecimentos repetitivos. Os eventos que particularizam o percurso da estirpe Buendía revelam um constante retorno cíclico.

A repetição contínua em Cem Anos de Solidão pode ser observada no perfil solitário que acompanha os personagens. Todos os membros da família Buendía possuem um ar de solidão. O espírito solitário é inerente ao clã Buendía. Por exemplo, o patriarca José Arcadio Buendía “foi abandonado à sua solidão”. O filho José Arcadio era “ansioso de solidão”. O coronel Aureliano Buendía tinha uma “clara vocação solitária”; ele era conhecido pelo seu “temperamento solitário e evasivo”. Amaranta “sofria o espinho de um amor solitário”. Rebeca “conquistou os privilégios da solidão”. Aureliano Segundo e Petra Cotes encontraram “o paraíso da solidão compartilhada”.

Além da herança solitária, o movimento circular eterno aparece na perene repetição dos nomes das personagens. Os homens da família Buendía recebem o nome de Aureliano ou José Arcadio. Já as mulheres são chamadas de Úrsula, Amaranta ou Remédios. Ademais, os nomes determinam o comportamento de cada personagem. Ou seja, o caráter do personagem é um reflexo do seu nome. A personalidade imposta pelo nome foi percebida por Úrsula que notou que “os Aurelianos eram homens angustiados e retraídos dotados de mentalidade lúcida; já os José Arcadios eram homens impulsivos e empreendedores, mas marcados por um signo trágico”.

Com efeito, a ciclicidade temporal é visível no retorno permanente dos vícios. A família Buendía foi devastada pela repetição incessante dos defeitos que corrompem a vertente masculina. A matriarca Úrsula constatou que a trajetória decadente da sua estirpe decorre do gosto exarcebado por “guerras, galos de briga, mulheres da vida e empresas delirantes”.

Por fim, a temporalidade circular pode ser encontrada no impulso repetitivo de construção e destruição. Os integrantes da família Buendía tem o hábito permanente de fazer e desfazer como o “coronel Aureliano Buendía com os peixinhos de ouro, Amaranta com os botões e a mortalha, José Arcádio com os pergaminhos e Úrsula com as lembranças”. Todos sofrem com o costume contínuo de começar e recomeçar uma atividade. A eterna repetição de iniciar um trabalho com o intuito de reiniciar.

MÁRQUEZ, G. G. Cem Anos de Solidão. Rio de Janeiro: Record, 1967

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