12
dez
09

não existe progresso neutro

A recusa da neutralidade da ciência em Marcuse não implica a defesa de uma volta ao passado tradicional, pré-científico, ou uma recusa da ciência e da técnica. Isso porque para ele a tecnicidade, assim como o projeto técnico e científico, tem caráter existencial, sendo elementos fundamentais na realização das necessidades vitais e na constituição de uma “vida sem angústia, pacificada e de alegria” (1992, p. 135). O objetivo de suas reflexões nos levam a pensar que, sendo a ciência e a técnica atividades humanas, uma “produção social articulada concretamente com a experiência histórica”, elas devem ser entendidas como “construção histórica de critérios de realização humana” (cf. Silva, [s.d.], p. 171), e elas só alcançam esse objetivo se assumirem claramente seu caráter político e histórico, mascarado pela afirmação da pureza científica. Marcuse não é tecnofóbico, ele quer olhar a ciência e também a técnica como esforço humano poderoso na luta pela existência livre e racional. Ele defende a realização do telos próprio à ciência; caso contrário, ela “perderá sua própria raison d’être” (Marcuse, 1967, p. 444).

O duplo referencial teórico utilizado por Marcuse na abordagem do problema da neutralidade da ciência revela o elemento antropológico que está na base de seu pensamento – como bem apontou Habermas, quando, ainda que de forma crítica, afirmou que uma nova técnica e uma nova ciência só seriam possíveis a partir de uma modificação da “organização da natureza humana” e também do trabalho social (cf. Habermas, 2006, p. 52). Para Marcuse é preciso ter a “coragem de elaborar uma nova definição do conceito de liberdade” (Marcuse, 1969c, p. 22) para além do reino da necessidade, pois existem hoje as forças materiais e intelectuais para a efetivação de um novo projeto de transformação. Porém, para que essa possibilidade real se torne um projeto, é preciso “ativar a dimensão biológica da vida”, obscurecida por necessidades falsas de uma sociedade repressiva; é preciso “o surgimento e desenvolvimento de novas necessidades vitais de liberdade, das necessidades vitais de uma liberdade não mais fundada na escassez” (p. 17) e no trabalho alienado, “necessidades humanas qualitativamente novas” – ou seja, “o surgimento de uma nova antropologia” (p. 17).

Longe de negar a própria história da civilização ocidental, Marcuse encontra nos seus símbolos e arquétipos, naquelas imagens que foram rejeitadas ao longo de sua história, os elementos para uma reconstrução da ideia de política como recusa da violência e da agressão, como espaço da decisão; nos termos de Clastres, é a própria cultura, como herança e diferença maior da natureza, que se investe totalmente na recusa desse poder (cf. Clastres, 1990, p. 32). Ao refazer os laços entre a ciência e a política, como resultado da recusa da tese da neutralidade, Marcuse restitui a ciência ao seu lugar na cultura humana enquanto realização dos ideais e das possibilidades de liberdade, defendidos ao longo dos tempos (cf. Bohr, 2008, p. 22).

por Marilia Mello Pisani
em Algumas considerações sobre ciência e política no pensamento de Herbert Marcuse

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